sexta-feira, 28 de março de 2014

Essa madrugada valeu mais que 1000 dias

27/03/2014,
você chegou

E fazia tempo 

que eu não fazia poesia
Ofereça-me o céu para voar
Ou, até mesmo, o chão para eu cair

Mas nunca esse silêncio,
esse vazio,

que parece nunca mais ter fim...
E saber que eu morreria por você
e você nem sequer quer saber se estou vivo
(Ou finge não querer)

Quando mergulhamos no mar do amor,
tudo pode acontecer...

Inclusive,
um absurdo desses...

quarta-feira, 26 de março de 2014

domingo, 23 de março de 2014

Apenas vou...

Seguindo minha correnteza...
(E não a correnteza de alguém)

Sem correntes
a prender o curso do meu rio

Aprendi

Se surgir uma pedra,
apenas rio

Na mesma velocidade,
continuo meu caminho

Surja o que surgir
Venha o que vier
Sempre há
a possibilidade...

Do desvio


E,
quem sabe um dia,



eu chegue no (a)mar

quinta-feira, 20 de março de 2014

domingo, 16 de março de 2014

Nada era alheio a ela...

Ao passo que ela era alheia a tudo...




E, ironicamente,

ou não,




tudo tão profundo

sábado, 15 de março de 2014

Não é que eu espere algo em troca...

Nem esperem de mim nada em troca...

Faço tudo, apenas...

Por tudo que me toca...



Do jeito que me toca


E só

E como você interpreta

Isso é um problema seu...

E só...

E eu...

Só...

Sol...

Que ilumina...


 
Mas, que também,

pode cegar...
 
 


sexta-feira, 14 de março de 2014

            Eu devia ter meus 16, 17 anos... Essa garagem foi histórica, marcante, tocante, e tudo que se possa escrever semelhante a tais palavras... Se bem que palavras não são nada, perto do que foram esses momentos, muitos, muitos momentos. Sobretudo, profundos. Para começar, tocávamos, cantávamos e bebíamos, numa liberdade que nossos 17 anos permitiam... Eu sempre saía dessa garagem de alma lavada (Limpa, que nenhum Omo seria capaz... Brilhando). Foi lá que ensaiamos para o meu primeiro show, com público, palco, etc. Meus amigos loucos, sonhadores, amantes da arte. Até hoje, sempre comento sobre esses dias... E posso dizer, sem sombra de dúvida, que fazem parte dos melhores dias de minha vida... Nessa garagem, eu nunca fui tão eu. Pela música, pelas conversas com esses amigos, por estar em um lugar, como disse um deles: essa garagem era em outra dimensão... E era... A dimensão da essência.


            Não bastasse, a casa desse meu amigo ficava bem em frente à BR 101, que cruza minha cidade natal, Estância. Entre um intervalo e outro, sozinho, ou conversando com alguém, jamais conseguiria descrever o meu sentir, o meu olhar, ao fitar o asfalto, os carros e caminhões passando... Mais de dez anos antes de minha viagem com Clarice. Antes, durante e depois dessa viagem que virou livro, sempre lembrei desses dias... As ligações que faço com o passado. Ali, no auge da minha juventude, eu apenas sentia cócegas em minha alma... Jamais poderia imaginar onde isso iria dar. Na inocência da minha juventude, jamais poderia imaginar como minha essência iria me cutucar, para chegar onde cheguei e fazer o que fiz.
Hoje, quando abri o facebook e vi essas fotos que uma amiga postou, que também fazia parte da turma, o coração acelerou... E o melhor: a satisfação de ter seguido meu coração, de não ter me acomodado, de não ter preferido o conforto de um emprego seguro, como eu tive, um tempo, em minhas mãos. Ainda bem, minha alma, essa mesma de mais de dez anos atrás, essa mesma que já não é mais a mesma, jamais me abandonou... Amor... E quem me ama, como ela, faço qualquer coisa... Qualquer sacrifício... E hoje, vendo essa foto, posso dizer que tenho sido um bom amante... Mas como diria meu queridíssimo Belchior: “minha normarlista linda, ainda sou estudante, da vida que eu quero dar”.


            Um tempo depois, ainda fizemos um outro show, eu e meu amigo Helmir, dois violões e duas vozes... Liberdade era a palavra de ordem... Descalço, em cima do palco, para eu nunca esquecer, de sempre tocar os pés no chão de minha essência... Como se eu fosse esquecer... Como se meu amor, minha alma, fosse me deixar esquecer... Mas relembrar é sempre bom... Tempos que não voltam jamais, mas que jamais vão embora... Tempos em que os sonhos começavam, ardiam na alma e que, ao mesmo tempo, tudo parecia tão fácil de resolver... Ah, a doce juventude... O tempo passa... O passado não... E o futuro, não estou nem aí... Vivendo bem o presente, posso me dar ele de presente...

               Mais uma vez, Belchior: “Até parece que foi ontem, minha mocidade... Meu diploma de sofrer, de outra universidade... Minha fala nordestina... Quero esquecer o francês... E vou viver as coisas novas que também são boas... O amor, o humor das praças cheias de pessoas... Agora eu quero tudo... Tudo outra vez...”


domingo, 9 de março de 2014

Vai, querida... Vai...
Não é mesmo para não ter medo
Engana-se quem espera ele ir embora...
Ele nunca vai

Pelo contrário,
vai junto,
de mãos dadas com você

É ele quem vai te indicar o caminho
(Ou cegá-la)

Portanto,
a escolha é sua


O desconhecido, o incomum...
É comum pararem por aí
É comum preferirem o conforto
do que o inconfortável caminho
da busca da delícia de viver...

É comum montarem no cavalo da mentira
e não tocar os pés no chão da verdade
com medo de se desmontarem
e não se juntarem nunca mais

Se isso é pouco para você...

Então vai

Se isso é louco para os outros

Mesmo assim... Vá!!


Os normais sabem pouco... de viver
Sabem muito, isso sim... de esconder
Sentimentos, sedimentados, congelados,
inventando mentiras, para não derreter

Vai...

Derrete seu corpo inteiro
Dispa sua alma
Esqueça sua calma,
por ora,
ela fugirá...

Para longe

Se queres ir longe,
vai lá, buscá-la

Verás que ela virá,
vestida de outra forma,
tipo assim:
nua


Vai atrás da vida que é sua
E não a que os outros te convencionou...
Não se convença fácil,
só porque o caminho é difícil...

Deixe que riem, deixe que falem,
sobretudo,
deixe que estranhem...

Quem aponta o dedo para o outro
Mal sabe que está apontando para si mesmo

E mesmo que isso doa,
se doe,
até a última gota do sangue que escorrerás de sua alma,
para encontrar a sua tão sonhada calma...

Não tem mais jeito,
se ficar não te traz paz

Não escreva na lápide dos seus sonhos:
- Uma alma... Aqui jaz!!

Já que é para ser você,
seja forte...

Não se furte,
não fuja,
não se finja...

Com verdade não se brinca...

Enfrenta-se

Não tente não ser você,
não conseguirás

Tens uma alma, iluminada, já é tarde...
A luz desse sol te cegará...

E sem enxergar, na noite, no tato, no instinto,
aprenderás a andar em lugares distintos...

Até a luz da manhã chegar

Para você descansar em paz

Não porque você morreu,
como os normais...

Mas,
justamente,
porque,
finalmente,
você nasceu...


Vai, meu amor...

Vai...

Não deixe que o mundo infrinja
Uma lei que é só sua...

A de mergulhar no escuro
E quebrar as correntes invisíveis
que vestem nosso interior...

Sua alma implora por ser nua...


Vai, meu anjo...
Vai...

Porque nesse mundo de invencionisses,
você não cabe mais

Seus sonhos não são sonhos,
descobristes...
Descubra seus medos
E sinta na pele,
o arrepio de que seus sonhos são reais...

Não olhe para trás!!

E, sobretudo...
Não ouça os idiotas,
os que falam tanto,
sem conhecimento de causa...

Vai e busque sua casa...

Sua cama está arrumada,
te esperando,
para quando chegares,
teres um sono de paz...






Vai!!




Se seu coração já disparou...


Parar não te trará paz
Meus gestos me guiam
Minha intuição me move
Eu não sou mais eu...

E cada vez sou mais eu

A inércia do mistério de estar aqui
A inevitabilidade de existir
(Quem tem a resposta?)
O respirar
Sem esforço
Sem cálculos...
Natural

O mundo tal qual ele é

Natureza...

Sim, com injustiças, traições, morais, culpas, arte, amizades, falsidades, e afins...

Tá afim?

Animais selvagens, ferozes, dóceis, melhor amigo do homem...

Tal qual apenas eles são...

Apenas são

Por que eu ser outra coisa?

Só por que disseram-me,
sem conhecimento de causa?

Depois que perdi minha casa,
foi que encontrei meu lar...

A Natureza...

O natural...

Apenas existo...

Eu acho...

Mas não vou perder tempo discutindo isso...

Apenas vou

E quem me provar o contrário, que prove..

Se conseguir,
eu tiro,
humildemente,
o meu chapéu

sexta-feira, 7 de março de 2014

Se há sonho, há dor...
Sonhador

A cura?
Está nas realizações...

Suportas?
São tantas portas
a serem abertas
a serem derrubadas
a serem ultrapassadas...

Portas da imensidão de dentro do seu ser...
Para ser você

E não alguém
a servir um sistema falido

Para se tornar um ninguém...
Falido

Essa sim,
a pior dor


Talvez...

a única autêntica
       Chuva torrencial desde cedo em São Paulo. Apesar de diminuir a intensidade, enquanto eu trabalhava, esta continuou a cair, sem parar um só instante. Depois das 20:30h, saio do trabalho, dessa vez fiquei até mais tarde por vontade própria, meu chefe precisava de mim e quis ficar... Por um motivo realmente necessário, não me incomodo. Fui para o terminal e, devido à chuva, a quantidade de pessoas por lá era muita. Meu ônibus demorou muito mais do que o normal. É chato, mas até aí, tudo bem. Enquanto esperava, deliciava-me com as palavras de meu querido Fernando Pessoa, sob o heterônimo de Álvaro de Campos.
        Depois de um bom tempo e já dentro do ônibus, vem-me uma ideia na cabeça e, sem papel, começo a escrever sem parar no próprio livro que lia. No livro, o tal Álvaro de Campos a fazer uma homenagem a Walt Withman, tecendo palavras que eu teceria para fazer uma homenagem a Fernando Pessoa. Porém, o que eu escrevi, foi sobre outra coisa, não havia homenagens. E fiquei bastante feliz com as ideias que veio-me repentinamente sem parar, até que minha alma gozou. E foi nesse estado de relaxamento e alegria que cheguei em casa, ainda debaixo de chuva.
        Porém, ao chegar e abrir a porta do meu quartinho que fica no fundo de uma casa, vejo água a passear pelo chão. Minha mala, que fica no chão, deitada, encontrei molhada. A capa do meu violão, também, a parte de baixo, já que este estava de pé. Olho embaixo da cama, e uma poça d'água a crescer lentamente. Tirei tudo que pude de mais importante, enxuguei o que deu pra enxugar e, enquanto isso, a chuva caía, ainda que fraca... Mas persistente. Meus panos de chão já estão em ação, mas é muito pouco para a quantidade de água. Sacrifiquei um pano de prato novinho, que mal usei, para tentar controlar um dos lugares de onde a água tá vindo, infiltrações das paredes. Também muito pouco. Foi a vez do meu lençol de me cobrir, para colocar ao lado da cama, encostado na parede para conter a água. Mesmo assim, a água continua a crescer. Agora, enquanto escrevo, tento ter mais ideias, para resolver a situação. E ouço o barulho da chuva aumentar sobre o meu telhado.
       O que fazer? Sei lá... Peguei meu violão, toquei uma música de Raulzito, depois fiz um cigarro ainda com o tabaco que me resta, peguei meu violão novamente, e toquei outra música. E enquanto tento dar um jeito aqui e ali, vou falando sozinho, comigo mesmo, brincando comigo mesmo... Para que se estressar? Agora, sem saber mais o que fazer, vou continuar tentando fazer alguma coisa... Desesperar-se? Jamais perderia um momento desses para rir... Tá sendo trabalhoso pra caralho... Estou ficando sem saída... Mas aprendi a viver de outra forma... Uma pequena analogia... Estou me divertindo... Agora tenho que ir brincar um pouco mais, a água está avançando... E nada vai me afogar.

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Peguei o pano e passei pelo chão molhado, para depois torcê-lo em um balde. Enquanto isso, o som rolando em meu notebook. Enquanto isso, eu cantava em inglês, sem saber quase nada de inglês, e ria comigo mesmo da situação. A soar em meus ouvidos, a trilha sonora do filme Na Natureza Selvagem. Saldo: um balde cheio. Vou lá fora lavar as mãos, e vejo o céu se abrindo, as nuvens indo embora. Primeiro alagamento em casa, sozinho, a gente nunca esquece. Por que sair da zona de conforto, se lá tudo é menos trabalhoso? Justamente, para brincar de viver... Aumento o som, acendo outro cigarro, e talvez dê para dormir sem me preocupar com isso... Mas ainda é cedo para saber... Ainda há muita vida pela frente.

quinta-feira, 6 de março de 2014

A poesia não está no papel

Está nas ruas,
nos gestos,
na natureza,
nas atitudes...

Em todo lugar

Passar a poesia para o papel
É o que faz alguns poetas
Mas ela, em si, sua essência,
está em qualquer lugar...

Se quiser ver,
nem precisa saber escrever...
muito menos, ler...

Basta saber apreciar!


E você também será um poeta

Não um poeta de papel...


Mas um poeta de olhar

quarta-feira, 5 de março de 2014

Sinto frio...

Estranhezas dentro de mim,
um dia de calor

Tenho febre

Tremo, tremo, tremo
e temo não adormecer
Temo que a dor
não adormeça

Não tenho anestesias


Uma linha fina,
invisível,
faz uma ligação,
com um passado que já passou...

Mas que,
inevitavelmente,
mora dentro de mim...

Um dia se fez morada...
Fincada


Algo cruza meu caminho, por acaso,
e com indelicadeza,
bate a porta de uma casa que eu nunca mais visitei

Tento seguir por outro caminho, por outras ruas...
Mas é escuro
E todo lugar parece-me sempre para lá

Não quero fugir,
não sou desses
Não quero fingir,
não tenho habilidade para tal

Já passou... Já passou...
Eu sei

Por que então,
essa lembrança,
na ponta dos pés,
veio me visitar?

Tudo bem,
não veio através de mim
Apareceu de repente
Assim como um cachorro atravessa a estrada, repentinamente,
a cruzar o caminho do carro em alta velocidade...

Algum sinal?

O que fazer?
Não há tempo para pensar...

Para que pensar?
Ora essa,
para que pensar?
Eis a minha verdadeira dor: pensar

Não é nada de passado,
é só deixar rolar,
no fundo, no fundo, eu sei...

É futuro

É só a vida,
querendo me ensinar

É que,
essa coisa,
tão importante para mim,
está lá...

Guardada na sala,
dessa velha casa abandonada,
que quando saí,
esqueci de levar...

E se estou versando
é porque estou enrolando
diante das portas
dessa casa sombria
que um dia foi sombra miha
e que só o escuro reina, agora
e tudo que sobra
é um eterno assustar

Mas eu vou lá

Todos esses versos, esse recreio, foram só a preparação

Para enfrentar

esse mar revolto...

A tempestade desse (a)mar


Como um navio afundado
Inesperadamente encontrado
Como se ainda tivesse algo lá
para eu encontrar

Mergulho, sem medo...

O melhor,
depois virá

O melhor,
vem logo após o medo

terça-feira, 4 de março de 2014

"E eu nunca me senti tão profundo
e ao mesmo tempo
tão alheio de mim
e tão presente no mundo"

Albert Camus

segunda-feira, 3 de março de 2014

Quando a vida útil do amor
acaba antes do prazo de validade

Clientes insatisfeitos,
favor dirigir-se
ao setor

DOR
Oh, mar que tanto já naveguei
A passear pela imensidão do ponto pequeno que é nosso planeta...
Do líquido que não pode ser medido
70% de água de que é feito o nosso ser...

Dias de navegação leve,
belo flutuar
Tempestades,
sombrios desafios...
Dias solitários,
acompanhados por seres de outra espécie
Que aparecem-me vez em quando...
Que aprecio vez em sempre

Dias de forte ventania...

E de sopro suave do ar


Ondas gigantes,
chuva e sol,
solo plano

Outros navios que passam ao longe, a acenar
A fazer contato,
para depois sumirem no horizonte

Que parece não ter fim...

A imensidão do ponto pequenino no espaço
A imensidão do espaço que ocupo
Um ponto menor ainda que o planeta

 A grandeza do navegar

 
Atraquei em cais
Em meus mais diversos humores
Despedi-me, como todo navegador
Abracei, conheci, explorei, conversei, sorri, chorei...
Como todo marinheiro de si mesmo

Conheci terras à vista e à prazo
Apenas passei ao longe por costas virgens e já devastadas
Toquei meus pés em lugares desertos e com pessoas se espremendo
Naveguei, naveguei, vaguei, dormi, vigiei...
Ora como um náufrago, impotente
Ora como um potente senhor dos mares

Novos ares, novas ondas, novos ventos, novas tempestades...
Vela levantada, vela acesa, escuras noites solitárias
As estrelas
Brilhos imensamente distantes
que não iluminam a mim
A lua
que ilumina o céu,
a mim
e o mar
 

Passeio pelo mundo
Passei por onde nem imaginava
Por ondas que eu pensava não conseguir pegar...

Ora sozinho, eu e a Natureza...
Ora habitantes do Velho e do Novo Mundo...
O novo,
tecnológico
O velho,
antes ainda do analógico...

As coisas ilógicas, em que pensam tanto, que discutem tanto...

E eu a navegar...

A envergar por esse caminho,
Do conhecido desconhecido

Coincidência ou não
Lágrimas são salgadas

Enquanto navego
Sinto o gosto da brisa
Do sal
Que escorre,
Até meu sorriso
Esse ponto pequenino
Minha imensidão...
Minha mansidão
Como se eu tivesse a certeza
De que estou, exatamente, em meu lugar:

Andar sem rumo
Para onde o vento me levar...








E alguém, dentro de mim, um dia gritou:

Vida à vista!!
Poesia:
Carimbar o sentimento
em um pedaço de papel...


Com direito a brincar com as palavras

domingo, 2 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

O Paraíso e o Inferno andam de mãos dadas...



Vai encarar?
Estou com uma vontade louca de me matar..

E é esse limiar...

Que me faz viver ainda mais
           Saio do trabalho às 19:00h, uma hora depois do horário que era para sair... Normal, os patrões não estão nem aí. Por enquanto, é isso... Vou levando. Ao menos, estou em um lugar que gosto de trabalhar, apesar de ser cansativo. Sem problemas. Estou adorando voltar à experiência da rotina... É sempre bom ir e vir. Trabalhei no banco, cansei-me, pedi demissão, viajei sem rumo, voltei para casa, publiquei um livro, divulguei-o, passei um tempo na casa de minha mãe, depois decidir vir para São Paulo, "tentar a vida", recomeçando do zero, do nada, usando meu cheque especial. Consegui um emprego, e agora estou de volta á velha vida do "dia-a-dia". Claro, não sou o mesmo que trabalhou no banco. E o que virá depois, só o depois pode dizer... Só posso falar do hoje. Aprendi, ou melhor, estou aprendendo, a viver um dia de cada vez.
          Ao dirigir-me ao terminal de ônibus da Lapa, nada de chuva, apesar do céu imparcialmente nublado... Estava todo coberto de nuvens. Depois que o ônibus saiu, poucos minutos depois, começou a tempestade. Chuva, raios e trovões... E eu, como tem sido de uns tempos para cá, olhar distante, observando cada detalhe perto de mim. No caminho, lembrei-me de quando era criança, de quando meus pais viajavam e a cada lugar novo que chegávamos, eu ficava a admirar a imensidão da cidade grande, as luzes, o movimento, as coisas acontecendo, as mil e uma possibilidades... Isso me fascinava... Mas depois que cresci, esse júbilo foi se perdendo, percebi que tudo isso tinha um preço: o distanciamento das pessoas. Quanto mais gente espremido em um lugar, maior a solidão. Só que hoje, de uns tempos para cá, tenho mudado minha visão... Passo indiferente à indiferença das pessoas. Aos poucos, aquele júbilo que tanto fazia cócegas em minha alma, volta a aparecer. Ao passar por ruas enquanto a chuva torrencial caía, ficava imaginando, como quando criança, onde aquele caminho ia dar, para onde ia aquele carro que passava pelo caminho e que entrava em uma outra rua, o que faziam as pessoas dentro daqueles quartos e salas, aquelas luzes acesas dos grandes prédios que enfeitam a cidade, mais uma vez, indiferente ao que isso possa trazer de ruim ou de regressivo para a vida humana... Isso não é um problema meu, que está ao meu alcance. O que posso fazer, eu faço, eu luto... Fora isso, a vida é assim, não tem jeito, e volto a ser criança. Quando pequeno, não me preocupava com essas coisas... Não sou o Deus que pode dar um jeito nos problemas, como gostariam as pessoas que um Deus fizesse. Tudo que tenho que preocupar-me, é comigo mesmo, pois só assim, ao me conhecer melhor, posso conhecer melhor o outro, e posso mudar o mundo, dentro de minhas possibilidades... Só sei que essa "viagem" de ônibus, de quase trinta minutos, para casa, trouxe à tona velhos sentimentos de quando eu era criança, de quando eu viajava com meus pais... E é justamente o que venho buscando: minha essência.
          Depois de cruzar a ponte, por cima da marginal Pinheiros, desço no primeiro ponto, meu destino final. Ainda chovia forte. Bem em frente, um boteco. Um lugar que já parei duas vezes para pedir duas doses de 51, em dois momentos diferentes. O lugar digno de ser chamado "pé sujo". Enquanto vinha no ônibus, estava pensando em comprar um vinho barato, o velho Dom Bosco, para me fazer companhia nessa noite chuvosa de sábado. Como ainda chovia forte e tinha que esperar a chuva passar, entrei no bar e pedi a velha dose de 51. Ao entrar, uma mulher, em pé, encostada no balcão, olhou-me com um olhar torto, mas não um olhar torto como se me estranhasse, e sim, por estar bêbada. Passei por ela sorrindo, por dentro, sem julgamentos, e fiz meu pedido. "Pura?", perguntou-me o dono do bar... "Põe um limãozinho, por favor". Quando procurei minhas moedas, no bolso de minha calça, em minha mochila e na minha carteira, vi que tinha exatamente R$ 2,00, o preço da dose. Queria também fumar um cigarro, já que não tenho fumado durante o dia. Tenho fumado dois cigarros, apenas à noite, um resto de tabaco que ainda tenho... Tenho economizado, tanto dinheiro, como meus pulmões. Mostrando minhas duas únicas notas de 50 reais, perguntei ao dono do bar se ele me venderia um cigarro para pagar depois, com um certo cuidado, já que ele só tinha me visto duas vezes, ainda assim, em intervalos distantes. Sem pestanejar, pegou o cigarro do maço, e entregou-me. Pensei que se fosse um bar chique, desconfiariam de mim e não me venderiam. Que coisa linda a simplicidade. Peguei minha dose, dirigi-me à porta do estabelecimento para fumar meu cigarro e, quando passei pela mulher que me olhou torto, esta dormia em pé, ora seu corpo indo para frente, ora seu corpo indo para trás, a encostar no balcão. Observei também os outro frequentadores do bar. A maioria com copo de cachaça nas mãos. Por um instante, parecia-me que era proibido entrar "são". A maioria cambaleava. Por sorte, ou por azar, o karaokê estava desligado... Podia divertir-me ainda mais, ao vê-los cantar, sem se importarem com afinações e outras teorias que tanto me chateiam. Acendi meu cigarro, e comecei, como sempre, a viajar... Antes, uma bela "golada" em minha dose.
          Na minha frente, um velho Monza, carro que meus pais tiveram há tantos anos atrás, e que me orgulhava muito, já que ainda era criança e ainda era tomado pela vaidade. Na época, como os dois eram funcionários do Banco do Brasil, era um carro e tanto... Carro que viajamos por aí... Carro que, hoje, não passa de um passado distante. Carro que eu grudava no vidro de trás,a observar as imagens novas que se apresentavam para mim. Ao meu lado, enquanto um sujeito esperava o ônibus, também se esquivando da chuva, outro chega perto, também a fumar um cigarro, e começam a conversar. Logo a conversa se desenvolve, assim mesmo, rápido e fácil, a simplicidade dos bêbados. Do outro lado, um sujeito, talvez o mais bêbado do estabelecimento, pedia desculpas a um senhor, que também pedia desculpas ao jovem. Não sei o que aconteceu, mas o jovem dizia que era ignorante mesmo, que era o jeito dele. O senhor, sabiamente, que parecia-me não ter culpa nenhuma de nada, apenas relevava. Percebi que a ignorância desse jovem era apenas álcool demais em sua mente. O senhor, sabiamente, apenas se divertia, assim como eu... Ele também, com seu copo de cachaça na mão. Tomei outro gole de minha dose, caprichada. Pensei novamente que se fosse em um bar chique, a dose viria "miada", pequena, para economizarem.
          Entre um trago e outro, passa um avião ao longe, ainda debaixo da chuva torrencial. Lembrei do meu medo de viajar de avião, que hoje não tenho mais, depois que passei a ver a vida e, sobretudo, a morte, de uma maneira diferente. Antes, só viajava bêbado... Hoje, sem uma gota de álcool, viajo tranquilamente... A vida (e a morte), é muito mais do que nos ensinam. Continuando minha viagem, depois de outro trago, vendo o avião a flutuar no ar, lembrei de um cidadão que eu acho foda, que tenho uma admiração sem fim, Santos Dumont. Esse cara, merece um parágrafo só para ele, só depois de muitos anos vim conhecê-lo além do "pai da aviação"... Ela foi muito mais do que isso.
          Um belo dia, quando ainda morava em São Paulo, fui para sala e liguei a TV. Zapeando pelos canais, estava passando um documentário sobre esse respeitável cidadão. Primeiramente, sorri de satisfação, quando vi que, um dia, enquanto ele estava a desenvolver seus dirigíveis, um sujeito muito rico desafiou quem seria capaz de levantar voo, dar a volta na torre Eiffel, e aterrissar no ponto inicial, em trinta minutos. Para isso, um prêmio alto em dinheiro. O velho Santos Dumont conseguiu, porém, perto dos trintas minutos que foi acordado, ele ainda "enrolou" um pouco, para fazer uma provocação, e passar dos trintas minutos. Uma crítica ao desvio do foco do que realmente importava. Ficaram a discutir se ele merecia ganhar o prêmio ou não, por causa disso. Enquanto isso, ela ria do absurdo. Ele não estava competindo... Depois da discussão, ele finalmente recebeu o prêmio. O que um ganancioso faria com o prêmio? Iria torrá-lo em bordéis, carros luxuosos e mulheres para se exibir para a sociedade. Já ele, pegou metade do dinheiro e foi no banco para pagar dívidas de pessoas pobres que tinham bens penhorados. A outra metade, dividiu com um matemático que o ajudou em seus projetos e a outra parte eu não lembro bem. Pessoas assim, arrepiam-me. Depois, no final do documentário, vi que ele construiu uma casa em Petrópolis, no Rio de Janeiro, uma casa para uma pessoa só, como ele mesmo dizia. Gostava de estar só. Depois que começaram a usar sua invenção em guerras, isso o deprimiu. Ele não era mais "o mesmo". Anos depois, cometeu suicídio. Salve Santos Dumont... Com certeza, ele me compreenderia. E não é só isso. Na época em que ele estava a desenvolver seus projetos, surgiu um boato de que, se não me engano, dois americanos tinha 'inventado' o avião antes dele, já que Alberto já estava avançado em seus projetos. Este, o que me impressionou, longe de sua vaidade, em vez de "bater o pé" e lutar por esse "troféu", apenas disse: "se eles dizem isso, quem sou eu para dizer o contrário?... Para mim, não importa... O que importa é que 'a coisa' seja desenvolvida". Desse dia em diante, passei, não só a admirar ainda mais esse "cabra", e sim, a amá-lo.
           Voltando à minha viagem, pés no chão, mas voando tanto quanto um avião, passa um helicóptero... Esse sim, eu tenho medo, Deus me livre, debaixo de uma chuva dessas. Apenas acompanho esse objeto voador que se vai, com suas luzes piscando. Lembrei-me também que Leonardo da Vinci já havia desenvolvido os primeiros traços de uma hélice que seria capaz de levantar um peso a uma velocidade "x" de rotação. Olho o velho Monza em minha frente... O tempo passa... Quantos séculos a passear pela minha cabeça, em apenas um cigarro e uma dose de cachaça... Enquanto isso, enquanto o tempo passava, a chuva ia diminuindo. Ao meu lado, as conversas continuavam e, dentro do bar, ao levar meu copo vazio, as pessoas cambaleavam e falavam alto. Divertia-me... Agradeci ao dono do bar, e vim para casa... Correndo.. Não da chuva, esta já não molhava tanto... Mas para poder escrever tantas ideias que passavam pela minha cabeça enquanto permaneci alguns minutos ali. Fantástico... Agora, vou parar, antes que o mercado feche, para comprar meu vinho e continuar minha viagem, eu e minha solidão. A noite será longa, uma noite de amor verdadeiro... Depois do vinho, quem sabe outra viagem não surja... Por enquanto, é isso... Que venha a vida... Nenhum sentimento de culpa, e nenhuma moral, e nenhuma opinião sem conhecimento de causa,  vai me parar...